quarta-feira, 29 de junho de 2011

Mantra

O fim não anuncia chegada... A gente não sabe se ele vai passar para o café da tarde, se vai aparecer no churrasco do fim de semana ou se já esteve aqui no almoço e nós é que não nos demos conta.

A gente nunca sabe.

Por isso, se você tiver essa chance, deite sobre o peito de quem você ama e ouça-o recitar um dos poucos mantras de amor sincero: as batidas do coração.

Ninguém pode prometer ficar para sempre... Além da morte, a vida é assombrada por uma série de fantasmas... Como o fim, esse monstrinho de dedos leves e pés treinados que não anuncia quando é que vai aparecer.

De olhos fechados, ouça o coração de quem você ama... É a única certeza possível. E por ora, é tudo o que você precisa saber.

domingo, 5 de junho de 2011

[C]oração



Preciso rezar mas não tem santo. O altar vazio torna minhas orações vagas. Ecoa um amém que teimo em confundir com amem.
Estou de joelhos pra ninguém, por uma fé que Nossa Senhora alguma há de entender.
Não sei a diferença entre terço e rosário, mas toma uma rosa e vê nos meus olhos: eu creio. Mesmo em crise, eu ainda creio.
Que o amor rogue por nós. Que esse altar vazio me valha.
Amo... Amém.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Juntos




O fuso horário os separa
O preço da ligação internacional
E o mar
Maldito Oceano Atlântico!

O sono os separa
As obrigações dele lá
E as dela cá
Maldito trabalho!

A realidade os separa
As culturas distintas
E as oportunidades
Maldita disparidade!

O presente os separa
As circunstâncias
E os continentes
Maldita distância!

Só a vontade os une
O compromisso aceito
E os planos em comum
Bendito amor!



"Romeu pegaria o primeiro avião com destino a felicidade.
Julieta o receberia dizendo 'Pra mim é você.'
E tocaria aquela música antiga, do Leandro e Leonardo.
Mas essa já é outra história."

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Simples

Sentada no parque, pensando em nada. Tem algo mais difícil que pensar em nada?
Pela manhã fez frio só para que as pessoas saíssem agasalhadas e mais tarde (agora) o sol pudesse rir da cara delas.
O parque não é bonito. A grama pede para ser aparada e as plantas não dão flor. O parquinho é velho, o campo é de terra batida e falta sombra. No entanto, tem crianças rindo e imagino que o som seja igual ao das crianças que passeiam no Central Park.
Depois de um tempo pensando em nada, que às vezes pode ser tudo, fiquei observando um casal de velhos.
Ela de coque, com alguma dificuldade para andar. Ele grisalho, trajando bermuda. Que engraçado pode ser um velhinho de bermuda.
Embora ele não demonstre nenhum cansaço, acompanha o ritmo dela, sempre de mãos dadas.
Depois de uma volta e meia em torno do campo, sentam-se num banco (esse, com sombra). Ela ajeita o ralo cabelo dele, que murmura alguma coisa como fazem os meninos quando pedimos que se alinhem. Mesmo sentados, ficam de mãos dadas, observando o parque sem flores, em silêncio.
Imagino que tenham filhos, netos... Talvez até bisnetos. Imagino que tenham casado na igreja numa época em que isso era importante e que se não o fizeram por amor, acabaram por achá-lo no meio do caminho.
Devem morar perto do parque de campo de terra e quem sabe já o tenham visto florido n'outros tempos.
Não param o moço do sorvete, não comem algodão doce... Apenas olham, de mãos dadas.
Parecem pessoas simples, com muita história para contar.
Devem ter lá suas bodas de ouro em comum.
Ela deve ter tido mais de quatro filhos, que ele provavelmente trabalhou como louco para alimentar.
Imagino que houve uma época em que brigavam demais, as crianças davam trabalho, as finanças não iam bem. Não hoje... Hoje ela caminha com dificuldade, mas eles tem um ao outro e passeiam de mãos dadas. Ele usa bermuda, ela ri e ele comenta que o tênis também não lhe cai bem. Sempre de mãos dadas.
Ou vai ver que se odeiam, mas vão aguentando porque nessa idade, o que se há de fazer?
Prefiro a primeira opção.

terça-feira, 26 de abril de 2011

26

Só não caio em desalento porque comigo tudo acontece muito rápido.

Desgaste. Ando cansada do que é praxe e das velhas novidades. Não dá mais pra reciclar a rotina... A pobrezinha já tem mais remendos que costuras.
Vou distraindo os ouvidos com Yann Tiersen e Cat Power, adiando o Bukowski que você me emprestou e insistindo no trigésimo segundo capítulo de Dom Casmurro, conversando com Machado sobre a obliquidade dos olhos de Capitu e a beleza contida na descrição da rapariga. Quisera eu aqueles olhos de mar, que arrastam para dentro. Mas ela é personagem que se materializa e eu, nasci matéria que se desenha. Nada de olhar de ressaca, que traga... No máximo rio, riacho.
Não vou buscar colo, assim como não corro atrás dos calos. Vejamos qual vem espontaneamente. O problema é a espera, a ansiedade. A ansiedade que desespera.
Alma, rasgue-se, faça-se papel... Mas aguente. Uma página de cada vez.
Amém.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Homicida




É como eu estava dizendo... Desde que ele apareceu e essa felicidade absurda começou a me rondar, não tenho mais paz.

Dei pra cantarolar Vinicius. Logo eu, decorando soneto.

Por isso quero que você o mate.

Faça com jeitinho, para não doer muito. Ele é sensível e... Ah, quer saber? Faço-o sangrar. Devolva todas as dores que ele me fez sentir naquela noite em que prometeu ligar, mas esqueceu. Fiquei plantada ao lado do telefone, planejando um alô desinteressado que não desse pistas da minha ansiedade. Mas o filho da puta não ligou. E fui dormir imaginando se havia sido trocada por uma loira, ou quem sabe uma ruiva. Ele gosta de ruivas.
Se tenho certeza? Claro que tenho certeza. Quem é que consegue conviver com essa pressão constante, essa responsabilidade? Não dá, não dá.
No meio das nossas noites de amor, tenho ímpetos de fulminá-lo com as armas que essa relação me trouxe: minha ansiedade e meu ciúme.

O palhaço brinca comigo, sabe... É, ele ri da minha intensidade.
Ficam os dois rindo da minha cara, ele e a felicidade. Parecem cúmplices. Eles conspiram contra mim. Planejam me entorpecer mais e mais, para depois fugirem juntos.
Como é que você não está entendendo? É óbvio. Ele apareceu do nada, encheu minha rotina de alegria, e ainda quer me convencer de que isso se chama acaso?
Olha, minha vida se baseia em buscar um amor perfeito, uma vida feliz. Ele me entregou tudo isso de bandeja. Por isso quero que ele morra e suma com os medos que trouxe consigo.
Ao mesmo tempo que o amo e sorrio feito boba, padeço de saudade.

É, saudade.
Sinto falta de buscá-lo por aí, de viver uma vida com lacunas. Ele me encheu de certezas, mas não sei lidar com isso.
Esse contentamento arrancou minha pose de comandante. Quem sou eu sem minha convicção?
Para me sentir no comando, vale tudo. Vale até esmagá-lo. Isso mesmo. Vou colocar sobre os ombros dele toda a minha angustiante necessidade de tê-lo, até que ele desista. E aí vou usar aquele vestido preto que adoro, e minha expressão de abandono: ‘Eu estava certa. Você não suportaria qualquer coisa ao meu lado’.
Sim, pode matá-lo. E se conseguir, apague também nossas conversas intermináveis, e aquele sorriso estúpido que eu amo.

Ele merece padecer como padeço sempre que me imagino sem ‘nós’.

Doem todas as dores quando penso que, finda essa felicidade, vou perder o rumo. Então, que ela termine do meu jeito, sem dar a ele chances de me abandonar.

Não queira compreender. Apenas faça... Mate-o!

Por causa dele, já recorri aos livros de autoajuda, já frequentei o MADA*, já fiz cena de ciúme, já enjoei dessa idiota que ele criou dentro de mim. Chega!

Decidi e não volto atrás. Quero vê-lo estatelado, morto no chão da sala, cena do meu livro favorito... Do jeitinho que me enxergo quando minha imaginação masoquista desenha o fim da nossa história.

Cada vez que imploro pra que ele me deixe, é meu coração suplicando pra que ele assine um documento jurando ficar pra sempre.

É minha última palavra.

Coração, mate-o!

quinta-feira, 31 de março de 2011

[S]Agrado

'Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.'
(Nietzsche)

Os deuses não se preocupam com castigos. Cometem pecados sagrados, se sagram pecadores divinos.

Vamos cantar mantras, achar o nirvana, negar o amor monoteísta.
Sejamos deuses.

Ilumine-se. Profano é julgar.

Dispa-se dos dogmas. Vista-se de mim.




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