quarta-feira, 4 de maio de 2011

Simples

Sentada no parque, pensando em nada. Tem algo mais difícil que pensar em nada?
Pela manhã fez frio só para que as pessoas saíssem agasalhadas e mais tarde (agora) o sol pudesse rir da cara delas.
O parque não é bonito. A grama pede para ser aparada e as plantas não dão flor. O parquinho é velho, o campo é de terra batida e falta sombra. No entanto, tem crianças rindo e imagino que o som seja igual ao das crianças que passeiam no Central Park.
Depois de um tempo pensando em nada, que às vezes pode ser tudo, fiquei observando um casal de velhos.
Ela de coque, com alguma dificuldade para andar. Ele grisalho, trajando bermuda. Que engraçado pode ser um velhinho de bermuda.
Embora ele não demonstre nenhum cansaço, acompanha o ritmo dela, sempre de mãos dadas.
Depois de uma volta e meia em torno do campo, sentam-se num banco (esse, com sombra). Ela ajeita o ralo cabelo dele, que murmura alguma coisa como fazem os meninos quando pedimos que se alinhem. Mesmo sentados, ficam de mãos dadas, observando o parque sem flores, em silêncio.
Imagino que tenham filhos, netos... Talvez até bisnetos. Imagino que tenham casado na igreja numa época em que isso era importante e que se não o fizeram por amor, acabaram por achá-lo no meio do caminho.
Devem morar perto do parque de campo de terra e quem sabe já o tenham visto florido n'outros tempos.
Não param o moço do sorvete, não comem algodão doce... Apenas olham, de mãos dadas.
Parecem pessoas simples, com muita história para contar.
Devem ter lá suas bodas de ouro em comum.
Ela deve ter tido mais de quatro filhos, que ele provavelmente trabalhou como louco para alimentar.
Imagino que houve uma época em que brigavam demais, as crianças davam trabalho, as finanças não iam bem. Não hoje... Hoje ela caminha com dificuldade, mas eles tem um ao outro e passeiam de mãos dadas. Ele usa bermuda, ela ri e ele comenta que o tênis também não lhe cai bem. Sempre de mãos dadas.
Ou vai ver que se odeiam, mas vão aguentando porque nessa idade, o que se há de fazer?
Prefiro a primeira opção.

10 comentários:

Mola disse...

Ah, que sensação boa de estar vivo!

Texto incrível, Flavinha!

regisarimajunior disse...

no banco da praça, na varandinha, sentado em uma cadeira de balaço... não importa o lugar. o que importa é estar de mãos dadas, com aquela mesma pessoa que nos fazia o coração acelerar no segundo encontro.

adorei! [=

Mika disse...

Que maneira bonita de contar um caso aparentemente tão simples.

Rosângela Monnerat disse...

Grata por me enviar o link do seu texto por DM, moça bonita. Se bobear, Maria Bonita. Não importa. Que o nome aqui é só opção.
Você me fez lembrar que ontem mesmo retuitei algo sobre este "olhar para o nada", em que se pensa sobretudo. Você bem sabe o que significa o tal olhar. É próprio de quem olha assim, como vc olhou para o casal na Praça, casal este que eu acabei por reconhecer como familiar agorinha, no seu belo e sensível texto.
E os vejo muito aqui também, na minha cidade, no meu bairro; na Missa, no Supermercado. Não tenho mesmo nenhuma preguiça de olhar para estas cenas do cotidiano. Pelo contrário, vivo delas.
Concordo com você, ipsis literis. Acho melhor a primeira opção para a conclusão do texto, e das vidas ali supostas.
Acho que deste casal eu nasci, e se hoje já não os vejo no mesmo formato em que você os viu, é porque minha mãe já não vive neste mundo faz algum tempo.
Quanto ao meu pai, ainda o observo olhando para o nada, quem sabe pensando, sobretudo naquela a quem pediu a mão, que então, guardaria pra sempre.
_____________
Bjs, querida.
A delicadeza do seu texto me emocionou.
Inté!

Tatiana Kielberman disse...

Viajei em suas palavras, Flah querida!

Você sempre tem esse poder...

Beijo carinhoso!

Camila Lourenço disse...

Como vc viajou pensando no nada, hein?rs

Não te conheço bem, mas já gosto um tanto bom de vc!
Rs

Beijo!!!

@David_Nobrega disse...

Eu não sei se sou eu que viajo demais no nada, mas ficar sentado em algum lugar inventando histórias das pessoas que vejo é frequente.
Gostei :)

Abraços!

Anderson Meireles disse...

Sensível, lindo, humano!

A b e l disse...

Belo texto, imponderável tempo.

Ayone disse...

que angulo bom de uma visao tao comum!!

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