quinta-feira, 19 de julho de 2012

A História de Jú e Rô


Suponhamos que Romeu e Julieta não tenham morrido. Digamos que as famílias deram o braço a torcer, ganhando um membro ao invés de perder um filho. O que viria depois, meu caro Shakespeare?




Romeu traiu Julieta com uma talzinha qualquer. Descoberto, passou a arrastar-se como um capacho em busca de perdão.
Acontece que Julieta não é Amélia, mas é uma tremenda mulher de verdade.
Com um chega pra lá, desbancou o Montecchio. Descolou um moreno e vestindo jeans, saiu de férias. Foi viver o amor sem dramas.
Não adianta mandar e-mail, muito menos recadinho no Facebook, seu Romeu boboca. Sua garota foi conhecer praias paradisíacas, sem wi-fi e 3G. O último sms foi para Isolda: “Ricardo tem um primo. Pare de perder tempo com caras como o Tristão.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Jazigo


Ilustração: Nicoletta Ceccoli

Sou um livro de romance miseravelmente mal feito. Tenho marcas nos seios, nas coxas, nos lábios. O corpo todo marcado por letras desconexas. Cheia das suas marcas, farta delas.
Esse tempo todo, um ano e meio, dois 12 de junho, festas em família, arrumação do apartamento, batida do carro, viagens... Duas décadas enfiadas em dezoito meses. Foi tudo uma farsa?
A carne viva, as palavras expostas. Chamaste minha literatura de vagabunda e isso doeu em cada um dos meus duzentos e seis ossos.
Em que ponto entregamos os pontos?
O apartamento desabou, o carro quebrou, o gato fugiu, o leite azedou, nós morremos. Morri primeiro. Cada vez que a gente se olhava, eu me via morta na menina dos seus olhos.
Vaguei como um fantasma, agarrada às roupas recém saídas da secadora; presa ao pé da mesa onde você costumava jantar; dançando na sala, desesperada por atenção. Até que numa noite qualquer, deixei de ser encosto.
Foi aí que você morreu. Morreu aqui, olha sua cova no castanho dos meus olhos.
Quem diria que terminaríamos assim, mortos. Experiências niilistas, egoísmo e fotografias em decomposição.
Entre lágrimas, jurei nunca mais amar ninguém. Nós dois sabemos que a promessa será quebrada quando aparecer o próximo. E ele marcará cada canto do meu corpo, até me fartar. Viveremos décadas em meses, viajaremos, discutiremos política e Kant, faremos planos e dançaremos valsas em festas de casamento.
Sou um livro de romance cujo escritor vive em bloqueio criativo e repete as mesmas cenas, capítulo pós capítulo. Vê?
Agora que você não vive em mim, consegue ver? Enxerga as marcas e os ossos quebrados? Entende porque eu tive que matá-lo naquela noite?
O amor é uma bagunça. O amor é uma merda. O amor é para sempre. O amor não é tudo. O amor rodou até cair tonto, meu bem. Tombamos.


Para ler ao som de Shake It Out.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Coleção


Há quem colecione pedras, figurinhas e moedas.
Eu coleciono dramas.


Ilustração: Nicoletta Ceccoli

Era craque na taxidermia de sentimentos. Quando o amor morria, empalhava e usava como enfeite. Já tinha cinco ou seis adornando a sala de estar.

Não lembrava com exatidão como começara a estranha coleção. Simplesmente cansou de abrir covas que estragavam a grama do jardim.

Muitos estranhavam, era desconfortável encarar aqueles amores de olhos esbugalhados decorando o ambiente. Pareciam vivos, observando o dono brincar com o amor atual.

A poeira e o desgaste denunciavam a idade de um dos enfeites. Com certeza era o mais velho, pendurado há tantos anos que a parede já tinha sua marca. Qual seria a causa do óbito?

Observando um a um dos amores que pendiam das paredes, dava certa pena daqueles sentimentos podados prematuramente. Os mais recentes quase respiravam, tamanha a perfeição do trabalho executado.

Alheio ao horror causado por sua arte, o pobre rapaz sentia-se realizado com as visitas boquiabertas. Com o tempo, passou a escolher relações pensando no fim. Quais seriam mais fáceis de empalhar?

Em poucos meses a coleção dobrara e ao final de dois anos, faltavam paredes para tantos amores.

Quando o assunto é o final de uma relação, há quem chore e fique de luto. E há quem nunca mais consiga se apegar a alguém.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Mundo Vai Acabar


“O mundo vai acabar
e ela cansou de dançar.”



Segundo a profecia Maia, o mundo acabará no dia 21 de Dezembro. A pergunta é: Para você, quantas vezes o mundo acabou?
Ainda que um copo d’água com açúcar ou um bom porre o tenha feito perceber que era pura frescura, aposto que pelo menos uma vez na vida você já teve essa sensação, a terrível sensação de fim do mundo.
A perda do emprego, do amor ou do cartão do banco; a morte de alguém importante, um acidente ou qualquer baque doloroso o suficiente para tirá-lo do eixo. Quem nunca?
A vida é um constante abrir e fechar de ciclos e exagerando um pouquinho, dá para dizer que ao longo da estrada a gente vê o mundo acabar (e recomeçar) algumas vezes.
A gente morre e renasce a cada queda – eis a (des)graça de existir.
Esqueça aquela história de cultivar o jardim para contar com as borboletas. O segredo, o grande segredo, é aprender a ressurgir cada vez que seu mundo acabar.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Nhoque e a Discórdia



“Ah! Se mata! Você nunca comeu nhoque!”
Ouvi essa frase na sexta-feira passada, quando saía do shopping Santa Cruz, em São Paulo. Uma jovem senhora, no alto de seus 40 ou 45 anos, berrava ao celular, notoriamente descontrolada. Apesar de bobo e até engraçado, só consegui rir do comentário minutos depois, já que no primeiro momento todo mundo que estava em volta só se preocupou em observar a briguenta ao celular. Com quem ela estaria falando?
O mistério do nhoque me ocupou por algum tempo. A frase, embora tola, saiu embebida num rancor genuíno, bradada como quem profere uma praga ou insulto.  
A conclusão é tão simples quanto a massa citada na frase. Todos nós já tivemos um dia de tia do nhoque, proferindo alguma bobagem ridícula com o intuito de ofender. Quem nunca?
Aliás, a tal mulher até ganhou uns pontinhos. Pela raiva expressa em seu tom de voz, aquele “você nunca comeu nhoque” queria dizer muitas coisas (impublicáveis).
Quantas vezes a gente não mostra o dedo no trânsito, xinga muito no twitter ou manda o namorado para a puta que o pariu?
A tia do nhoque é só um exemplo do quanto a cabeça quente ferve nossos miolos e torna nossos argumentos um tanto ridículos.
A gente discute sobre música e termina chamando a outra pessoa de gorda; cai numa crise de ciúme e acaba jogando na cara do parceiro que o presente de Dia dos Namorados foi uma droga; rola uma desavença com a mãe por causa da toalha em cima da cama e a gente garante que vai sair de casa. A cabeça quente, meus amigos, converte nossos argumentos em nhoque!

PS: Adotei a frase como meme pessoal. Se um dia eu disser que você nunca comeu nhoque, considere-se insultado.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O Dia dos Namorados e Seus Clichês

Não é amor se não for um pouquinho cafona.
Flerte é Oscar Freite, amor é 25 de Março.



O Dia dos Namorados é uma data meramente comercial.
Ele fará uma reserva para o jantar e isso não adiantará nada porque como toda mulher, ela há de se atrasar.
Ela sentirá frio, porque mesmo com a baixa temperatura dos últimos dias, não vai abrir mão de usar aquele vestidinho que ele adora.
Depois de duas ou três horas esperando por uma mesa, notarão que o cardápio não é tão especial quanto o anunciado, embora os preços tenham sido especialmente estipulados para a data.
O jantar será um tanto estranho, já que metre e garçons estarão notoriamente afobados e loucos para que o casal coma logo e dê lugar ao próximo par. Olha só o tamanho da fila na porta do restaurante!
Os pombinhos trocarão presentes que transformarão a expectativa em decepção disfarçada. Ela, que passou as últimas semanas comentando da vitrine da loja tal e do sapato da marca x, ganhará o livro que ele está a fim de ler. Ele, doido por uma camisa da Internazionale, forjará um sorriso ao abrir o pacote com uma cueca Calvin Klein.
Errar a mão no presente acontece, ambos pensarão.
Após pagar uma conta que renderá dor de cabeça no dia seguinte, ele abrirá a porta do carro para ela. Um casal feliz!
Seguirão para o motel onde rolou a primeira vez e encararão outra espera de duas horas. O amor é resistente, um casal que trabalha e encara uma comemoração em plena terça-feira, não. Cochilarão no carro enquanto aguardam uma suíte.
Acordados pelo funcionário do motel que anuncia a disponibilidade do quarto, a dupla sonolenta fará amor ao som da música que tocou na festa da fulana, quando beltrano os apresentou.
Finda a comemoração de praxe e loucos por uma boa noite de sono, se darão conta de que já são quase sete da manhã e que precisam voltar para casa se quiserem chegar no emprego a tempo.
O Dia dos Namorados, meus amigos, não passa de uma data meramente comercial. Eis o que rola na versão mais óbvia possível.
Ah! Vale lembrar que mesmo com tudo isso, o casal que sorri na manhã de quarta merece comemorar o dia 12/6 no ano que vem.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Redes Sociais

Carta mais ou menos aberta aos usuários das Redes Sociais.


Deus disse "Faça-se a internet!". E a internet foi feita. E deus viu que isso era bom. 
O que ele não podia prever é que nós foderíamos tudo. 

Dá-lhe postar foto dos pés, dos pratos, da porra do cachorro e do papagaio (Sou dessas. Curtam!). 

Dá-lhe tecer uma carapuça aqui, dar uma stalkeadinha ali. Ah! Que mal tem? 

Dá-lhe cagar regra na porra toda e mandar indireta para fulano, que será pescada por beltrano e chocará sicrano. 

Deus disse "Faça-se a internet!" e simultaneamente, veio a Sodoma do Facebook e a Gomorra do Twitter. Vai, deus! Destrói e começa tudo de novo, que a gente não entendeu nada e tá T U D O E R R A D O . COM . BR

A gente cria uma conta com todo amor e carinho, escolhe avatar (Valeu, Photoshop!), seleciona amigos e para quê? Para quê, minha gente? Para disputar mãozinhas com dedinhos para cima e/ou seguidores. E porque eu quero seguidores? Para ter mais seguidores. Por quê? Para ter mais seguidores. Por... (Looping eterno.)

Ai, mas Redes Sociais são bacaninhas, eu falo com meus amigos e... Cala a boca! Se fossem amigos de verdade, você usaria a porra da rede para marcar o ponto de encontro do final de semana, não para mandar recadinhos com corações.

E antes que Noé construa uma arca e selecione um perfil de casal por Rede Social, vale ponderar: Noé, poupe-se! Construa apenas uma canoa e leve consigo os poucos com bom senso. (Eu, por exemplo, tô fora!)

Além de tudo que apontei, as Redes Sociais acabaram com o direito da gente opinar. Não gosta da banda x? Ah! Vá se foder, vadia! Não curte o autor y? Palhaço, só fala mal porque não sabe fazer melhor! Ousou mencionar que a atriz z engordou? Se enxerga, garota! Você usa 42!

Não dá mais para expressar opinião sem ofender alguém. Em tempos de Redes Sociais, as pessoas sempre levam para o lado pessoal. Tolinhos!
É isso, cara. Aproveita a profecia Maia, Grega, Tupiniquim ou sei lá o que e dá um jeito nisso!


PS: Wagner Moura, obrigada pela inspiração. Odiei você nos vocais! 
PS 2: Curtam esse texto ou ficarei CHATIADÍSSIMA, com i de ironia. 
PS 3: Quem discordar, é porque é recalcado!