quarta-feira, 11 de julho de 2012

Coleção


Há quem colecione pedras, figurinhas e moedas.
Eu coleciono dramas.


Ilustração: Nicoletta Ceccoli

Era craque na taxidermia de sentimentos. Quando o amor morria, empalhava e usava como enfeite. Já tinha cinco ou seis adornando a sala de estar.

Não lembrava com exatidão como começara a estranha coleção. Simplesmente cansou de abrir covas que estragavam a grama do jardim.

Muitos estranhavam, era desconfortável encarar aqueles amores de olhos esbugalhados decorando o ambiente. Pareciam vivos, observando o dono brincar com o amor atual.

A poeira e o desgaste denunciavam a idade de um dos enfeites. Com certeza era o mais velho, pendurado há tantos anos que a parede já tinha sua marca. Qual seria a causa do óbito?

Observando um a um dos amores que pendiam das paredes, dava certa pena daqueles sentimentos podados prematuramente. Os mais recentes quase respiravam, tamanha a perfeição do trabalho executado.

Alheio ao horror causado por sua arte, o pobre rapaz sentia-se realizado com as visitas boquiabertas. Com o tempo, passou a escolher relações pensando no fim. Quais seriam mais fáceis de empalhar?

Em poucos meses a coleção dobrara e ao final de dois anos, faltavam paredes para tantos amores.

Quando o assunto é o final de uma relação, há quem chore e fique de luto. E há quem nunca mais consiga se apegar a alguém.

7 comentários:

Eni disse...

Simplesmente perfeito, lindo, delicado, sensível.
Partilhamos da mesma coleção.

http://divadatiaeni.webnode.com

marques disse...

Não se apegar não deveria ser tão ruim, né? Serve como defesa. Por outro lado, só desfrutamos de certos sentimentos quando estamos apegados. O que fazer?

Belo texto. Parabéns.

Brunno Lopez disse...

Colecionar amores, como não tinha pensado nisso antes?

Você sempre aparece com uma abordagem deliciosa de ler.

E eu sempre concordo.

sobrefatalismos disse...

Lembro-me de um dos primeiros livros que o escritor Antonio Prata publicou, cuja orelha dizia o seguinte em se perfil: "colecionador de camisas listradas e amores errados". É bem por aí. Mas, apesar desse tropeço todo, uma hora acertamos por tempo indefinido. Que seja infinito, então, enquanto durar.
Já aposentei minha coleção.
Abraços.

Tatiana Kielberman disse...

Lindo e verdadeiro, Flah!

Você toca fundo a nossa alma, sem qualquer exceção ou dúvida...

Beijinho!!

Eduardo Danim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Danim disse...

Gostei muito. Não sei se por ser você quem escreveu (e como não gostar do que você escreve)... talvez por me identificar ou... Deixa pra lá.

Mas uma coisa é certa, todo colecionador de amores já foi enfeite na coleção de alguém.

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