segunda-feira, 19 de março de 2012

(Lou)Cura



Às vezes quero te dizer milhares de coisas e ao mesmo tempo, não quero dizer nada. Posso começar contando do azulzinho do céu que vejo da minha janela todas as manhãs, passar pelo menino que cata latinhas na rua, comentar o que comi no café e terminar nas minhas insatisfações que não sei de onde vem e me incomodam feito etiqueta pinicando.

Eu não quero dizer nada porque tenho ímpetos de te matar de vez em quando. Não literalmente, só aqui dentro.

Bebo litros d’água durante o dia e me imagino em noitadas boêmias, enchendo a cara de álcool e te afogando bem aqui no meu peito. Você nadando apressadamente, desesperado, o álcool subindo e meu coração sucumbindo enquanto gargalho com o copo na mão: Eu vou te matar!

Às vezes quero te dizer que odeio o que a sua falta me causa e acabo optando por não dizer nada, porque você vai rir ou desdenhar, sem entender como pode doer tanto uma saudade de apenas dois dias.

Eu não quero dizer nada porque tenho vontade de rasgar todas as suas roupas e depois jogá-las pela janela. Tenho vontade de me atirar também. Não literalmente, só atirar do oitavo andar a bobinha que ri sozinha quando é surpreendida pelas suas lembranças. Ela caindo e eu assistindo de camarote, satisfeita: Cai, tolinha!

Eu quero te dizer um milhão de coisas que você ainda não sabe – ou talvez saiba, mas não sob a minha ótica.

E é tanto querer, é tanto a dizer, é tanto, tanto, tanto... Que eu fico assim, desesperada, com mil pássaros batendo as asas dentro da minha barriga e cem aranhas tecendo teias na minha cabeça.

Eu nunca senti isso antes e essa porra de sentimento descomunal oscila mais que a minha fé na humanidade. Fé cega, lâmina pra lá de afiada.

No fim das contas, não te afogo e tampouco me atiro pela janela.

Senta aqui. Às vezes quero te dizer milhares de coisas...

5 comentários:

Camila Lourenço disse...

"Você nadando apressadamente, desesperado, o álcool subindo e meu coração sucumbindo enquanto gargalho com o copo na mão: Eu vou te matar!"
Isso foi comicamente perigoso. Quem nunca?
hahhaa

Se eles soubesse a metade do que temos vontade de dizer talvez nos achassem mais loucas do que já acham. Mas e daí? O amor não é mesmo atestado de sanidade.

Bjo.

Espelho Meu disse...

Uma gargalhadinha no começo e um "ai que gracinha" no final. Um dos meus favoritos... Terno!

Cláudio Marques disse...

As vezes falo tanto com um sorriso. Minhas palavras se perdem no caminho: lingua, saliva, labios....
E transformam-se em beijos. Que ouvem tuas respostas.

Zucco disse...

Muito bom, como de costume né! Mas é assim mesmo, os sentimentos são indomáveis e jamais os domesticaremos.
Mas como eu escrevi em um dos meus textos, as pessoas não estão preparadas para verdade, então é melhor guardar mesmo esses devaneios particulares. Que todos temos e que só nós entenderemos todas as pequenas e importantes peculiaridades.

menina Gabi. disse...

E como dói essa saudade de apenas dois dias.
Prometi a mim mesma que ia escancarar isso de vez, falar que amo e ponto, e dane-se o que vier depois disso. Só esqueci de cumprir.
Ótimo texto :)

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